Adultos têm mais dificuldade para aprender 2ª língua. Mas por quê?

Enquanto estudar um novo idioma é prazeroso para algumas pessoas, para outras é um verdadeiro penar, que vem acompanhado de muitas mudanças de escolas, métodos e tentativas frustradas.

Para entender os motivos que dificultam a aprendizagem de uma língua estrangeira em adultos, a professora Myriam Castro e Silva, da Universidade de Brasília (UnB), realizou um trabalho entrevistando adultos que tentaram várias vezes aprender o inglês, sem muito sucesso. Descobriu que essas causas estão mais relacionados a fatores afetivos e emocionais do que a limitações físicas. O famoso medo de errar.

“A inibição, na verdade, é a maior barreira que o adulto encontra no aprendizado, em geral, de uma outra língua”, explica Armando Marinelli, que trabalha há mais de 30 anos no ramo de idiomas e é diretor regional da escola de inglês Number One. “Não é absolutamente nada ligado ao intelecto. A questão básica da dificuldade do adulto, não só no aprendizado de idiomas, é a questão emocional. Enquanto no adolescente e na criança essa barreira é menor”, explica.

Para Armando, se o adulto está bem resolvido, o aprendizado fica mais fácil. E é exatamente o que acontece com Rosa Maria Lacerda da Costa, mais conhecida como Rosinha. Aos 77 anos, está na turma de iniciantes de francês, com alunos das mais diversas idades. E tira as dificuldades de letra. “Eu pergunto tudo mesmo, não tenho vergonha por causa da idade”. Apesar de reconhecer ter um pouco de dificuldade para falar e escrever.

O mesmo acontece com o delegado de polícia aposentado e triatleta Jorge Romão, 60, que afirma não ter problemas para fazer perguntas e dizer que não entendeu na sua sala de aula, em uma turma iniciante de inglês. “Eu sinto um pouco de dificuldade porque a garotada que eu estudo junto é muito nova e eles assimilam mais rápido, mas não me sinto inibido não”, diz.

A psicopedagoga Maria José Cerutti considera essas dificuldade do adulto normais. “Quando a pessoa vai envelhecendo, suas estruturas mentais vão se consolidando e fica mais difícil se desprender da sua língua materna”. Por isso a criança sente mais facilidade para aprender.

Mas se está difícil, o que fazer?

Algumas escolas de idiomas tentam montar turmas mais homogêneas, quanto à idade, como é o caso do Number One, que oferece turmas específicas para adultos. Armando Marinelli, diretor regional da escola, explica que “em um grupo homogêneo, hipoteticamente, as pessoas têm dificuldades parecidas, o que faz com que elas se sintam mais a vontade para falar, se expressar”.

A coordenadora pedagógica do Centro de Línguas para a Comunidade (CLC) da Ufes, Leni Puppin, explica que eles também tentam montar turmas com faixa etária de adultos parecida, mas, mesmo nessas turmas mais homogêneas, às vezes alguns apresentam um certo bloqueio. Por isso, ela explica, que é necessário identificar qual é a dificuldade do adulto, para trabalhá-la individualmente.

Além disso, “o aluno de idiomas precisa de coisas extras da sala de aula, como livros e filmes”, explica Puppin. A psicopedagoga concorda. “É preciso procurar formas diferentes de aprender outra linguagem. A música e os filmes, por exemplo, ajudam na dicção”. E ninguém duvida que o mais importante é a perseverança. “Nesses meus 30 anos trabalhando com idiomas, nunca vi um caso de não aprendizado. Não existe isso”, certifica Armando.

Reportagem especial produzida para o Gazeta Online entre os dias 20 e 22 de outubro de 2008.

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